Colagem sem cola, laser, rock’n’roll e processo criativo.

(Você deve estar se perguntando “AMIGO, CADÊ A BAGAÇA INFANTIL QUE VOCÊ IA FAZER?” Bem, eu falei que poderia demorar uns 10 anos, então espera mais um tiquinho.)

ENQUANTO ISSO eu estou tocando (hehe) um negócio bem bacana: o projeto gráfico de um disco de heavy metal / hard rock / rock’n’roll de uma banda brasileira! Eu já havia sido convidado informalmente para fazer a capa do segundo disco da banda, mas na época não rolou. Dessa vez, porém, não teve desculpinha esfarrapada.

Após topar o desafio [desenvolver uma ilustração para cada música (oito no total) segundo a minha interpretação pessoal das letras] chegou a hora de colocar em prática o meu patenteado PROCESSO CRIATIVO DO JULIO™ (PCJ™, para simplificar) — que vou registrar por aqui.

PASSO I – Descobrir o que o cliente quer.

O briefing era seguir uma linha meio heroica, transformando figuras normais que enfrentam os desafios do dia-a-dia em heróis. Minha primeira versão era um mix de antigos cartazes de propaganda comunista / art déco / Superman de Max Fleischer / Batman de Bruce Timm. Fiz as minhas primeiras propostas de estilo, que foram muito bem recebidas. <3

Com esse esboço já tinha uma linha a seguir. Bem simples e fácil, com um estilo que dominava. Bastava seguir em frente para o próximo passo do PCJ™.

PASSO II – Definir material a ser utilizado.

Cores não são necessariamente o meu forte. Gosto de cores chapadas e levemente fortes pra caramba, mas se precisar desenvolver alguma espécie de sombras sem usar hachuras, estou perdido. POR FAVOR IGNOREM ESTA PARTE SE ESTIVEREM PENSANDO EM ME CONTRATAR PORQUE EU FAÇO SOMBRAS COMO NINGUÉM OLHA SÓ

TÁ VENDO SE EU FAZIA ISSO EM 2010 IMAGINA AGORA

A decisão óbvia era OBVIAMENTE trabalhar com colagem. Já fazia um tempo que queria brincar com isso e achei que não doeria se jogasse um pouco de Saul Bass no meu mix. Teria a textura, sombra e estilo exatamente como queria. Escolhi um kit de papéis color set com 10 cores diferentes e pronto, agora era só botar a mão na massa e produzir.

PASSO III – Como posso complicar isso o máximo possível?

Óbvio, né? Se for só para desenhar no grafite e passar a caneta preta nem saio de casa.

Lembrei de um negócio bem legal que existe aqui na cidade de São Paulo: os Fab Lab Livre SP, uma rede de laboratórios públicos que disponibilizam equipamentos geniais para a produção de qualquer coisa. Basicamente se você tem uma ideia, basta dar um pulo lá para produzir — e usar estes equipamentos totalmente de graça.

Decidi que usaria a cortadeira laser deles para cortar o papel e reproduzir todos os detalhes do meu traço / estilo no corte, criando uma espécie de colagem sem cola empilhando camadas de papel colorido. Ficaria massa demais. E ficou.

Aprendi muita coisa nesse dia, principalmente sobre como montar o arquivo para a cortadeira laser e como proceder quanto tudo pega fogo.

Incêndio na cortadeira laser!

PASSO IV – Aprovar protótipo com cliente.

Com os papéis cortados, agora era só montar e mostrar pra banda.

Agora sim, de vento em popa e aprovado pelo pessoal, nada poderia me parar! EU ERA INVENCÍVEL

PASSO V – Como posso me boicotar psicologicamente e quase colocar tudo a perder.

Bem.

Estou tratando isso com a minha psicóloga, mas eu tenho um auto-boicote fabuloso, totalmente inconsciente, que quase me ferrou aqui.

Sem perceber, eu posso acabar voltando ao terceiro passo do PCJ™ e ficar preso por lá. Neste caso, eu acabei decidindo SEM MOTIVO NENHUM que todos os desenhos seriam baseados em referências fotográficas. Ou seja, eu não faria nada até conseguir tirar foto de todas as cenas com “pessoas reais”.

Depois de umas duas semanas efetivamente parado, só pensando em como faria os desenhos restantes, eu acabei percebendo o que o meu inconsciente estava fazendo comigo. É difícil, mas uma vez percebido é bem fácil sair dessa. 🙂

PASSO VI – Termina a bagaça, pô.

Três dias.

É isso mesmo. Só foram necessários três dias para fazer as seis ilustrações restantes (duas já haviam sido definidas na fase de protótipo) e uma nova para a capa do disco, desenvolver os arquivos digitais com os cortes já corrigindo os erros detectados lá no passo III e montar tudo.

Nessas horas é divertido ver o quanto o cérebro cria barreiras e dificuldades que não existem. Toda a minha preocupação de tirar fotos de cada uma das cenas para deixar tudo mais certinho era tudo balela. Meu estilo é o meu estilo e essa coisa torta é o que o torna legal. <3

PASSO V – Finalizar o projeto.

Claro que esse passo ainda não chegou. Estamos revisando algumas coisas e com a minha mudança para Portugal pode ser que muita coisa do projeto mude junto. O cabeçalho desse artigo é um aperitivo do que vem por aí.

O estilo ficou ótimo e será uma excelente adição ao meu portfólio, mas acho que a melhor parte foi trabalhar com a banda, sentir que todos estavam na mesma sintonia e perceber que realmente existe um enorme potencial nessa coisa doida de virar ilustrador.

Vamos que vamos. \o/

Oi, tem alguém aí?

Tem? Legal. Senta aqui que vou te contar uma história.

Em 23 de setembro de 2016, uma sexta-feira, comecei um projeto de “contos de terror para crianças” chamado Pequenos Horrores. A ideia seria bolar uma série que lidasse com medos simples, como medo do escuro, do monstro debaixo da cama etc. Criei os personagens, bolei o roteiro, achei o meu texto ruim e desencanei. Fim.

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Tá, não foi o fim. Junto com o Um Ano Agradável, ainda gostava da ideia desse projeto. Tinha potencial.

Então pedi para a minha sensacional esposa Francine escrever um roteiro baseado nessa imagem, sem nenhum tipo de briefing adicional.

Com o roteiro da Fran (bem melhor que o meu), resolvi voltar a tentar trabalhar num esquema sem prazo: pode até demorar uns 10 anos, mas vamos que vamos. Também quero documentar o processo aqui, para ter um histórico e forçar a evolução do projetinho. 🙂